CRÍTICA CRIATIVA DO FILME
AKA ANA, DE ANTOINE D’AGATA

Este hipertexto foi escrito através da bricolagem, sendo seu primeiro formato de apresentação a obra Livro-bichobjeto (2020), que criei como resenha crítico-criativa do filme Aka Ana (França, 2008), de Antoine d’Agata, fazendo uma citação plástica direta à obra Bichos (1960), de Lygia Clark. A concepção do livro-objeto partiu de um caderno médio com miolo serrilhado formando vários quadrantes; estes serviram de módulos interdependentes para a escrita à mão do texto no papel, que depois foi cortado nas marcas de serrilho e dobrado, em uma montagem performada em vídeo.

A possibilidade de dupla entrada para a leitura do livro-objeto está materializada na existência de duas capas, em lugar de uma capa e uma contracapa como apresenta o formato tradicional do livro, não havendo hierarquia entre elas. Por isso, na versão material, o nome da obra se encontra nas páginas centrais, deslocando para dentro a chave trazida pelo título e os sentidos que este carrega, a fim de instigar no leitor seus próprios sentidos para ler o livro-objeto. Com o objetivo de transcriar essa relação entre escrita e leitura no texto agora em tela, apresento-o como dois portais interligados cujos interiores estão habitados por diversos móbiles flutuantes. Para acessá-los, clique nas imagens das capas - ou aqui & aqui.

O formato de crítica criativa faz acontecer modos de ler singulares, capazes de afetar também através da forma. Forma essa implicada no conteúdo temático das “malhas da leitura”, pois todo este trabalho é um “trabalho de citação”, no qual, segundo Antonie Compagnon (2007), toda escrita é uma reescrita, citação de escritas anteriores, mesmo quando não se sabe de qual origem. Por outro lado, apontando de maneira sistemática, dois são os tipos de citação direta a serem encontrados no texto a seguir: a) colagem por encaixe (são os trechos apropriados em que já não se vê o recorte, nem a cola, não fossem as aspas, o itálico ou o recuo de margem; eles estão inseridos por contiguidade no corpo do texto, em contexto diferente do original, para aproveitar as palavras exatas ou a forma de dizer do outro autor); b) colagem por aplicação (são os trechos dos hiperlinks que circundam o texto, compondo blocos hipertextuais que tramam diferentes texturas a depender da rota trilhada por cada leitor, podendo funcionar como continuidade ou quebra desta).

Além das intertextualidades acima indicadas, o texto apresenta como trabalho de citação a relação entre Aka Ana e o livro Madame Edwarda, de Georges Bataille (1978). D’Agata estabelece uma relação transmidiática com o livro, já que se baseou nele para roteirizar sua obra audiovisual – não como uma adaptação cinematográfica, mas como um roteiro de sensações a serem vividas em cena. Desse modo, o realizador não simplesmente prolonga a vida do referido livro, mas a desdobra em outra vida, como poema Herberto Helder (2014): “Escrevi uma imagem que era a cicatriz de outra imagem” (HELDER, 2014, p. 438). Assim o pretende também a crítica criativa que desdobra Aka Ana em outra vida – uma obra multifacetada das Edições AKANA que constitui uma zona cinzenta entre a reflexão e a poética.

Ainda sobre a trama de criação, Harold Bloom (2003) propõe a “desleitura” como exercício da autonomia criativa diante do texto lido, uma liberdade de invenção a partir dele, sem necessidade de autorização, nem prestação de conta de qualquer herança poética. Nesse sentido, o autor afirma: “(...) não existem textos, apenas relações entre os textos.” (BLOOM, 2003, p. 23, grifos do autor), como proposto também por Compagnon (2007). Traçando um paralelo com tal perspectiva, o livro-objeto Isto não é um bicho-papão é um modo de “desler” Aka Ana, que, por sua vez, é uma desleitura de Madame Edwarda.

Sendo o filme em questão considerado uma obra de literatura expandida, é condizente que clame por uma crítica também expandida (FREITAS; PEREIRA, 2015), um modo de lê-lo que amplie a relação escrita/leitura e o que se entende por ela. É nesse sentido que proponho a você, leitor, um modo de ler expandido, suscetível a saltos, fissuras, enlaces, volteios, etc, mesmo longe da materialidade do livro-objeto. O filme como literatura expandida é uma forma diferenciada de circulação do modo de ler, que é um modo também de ver, já que ocorre pela via cinematográfica. É uma leitura que exige ver e ouvir, ouvler – esta é a potência da leitura de Aka Ana.

REFERÊNCIAS


AGAMBEN, Giorgio. Em nome de quê?. In: AGAMBEN, Giorgio. O fogo e o relato: ensaios sobre criação, escrita, arte e livros. São Paulo: Boitempo, 2018. Trad. Andrea Santurbano; Patricia Peterle. p. 89-97.

AKA Ana. Direção: Antoine d’Agata. Roteiro: Antoine d’Agata. França, 2008. 60 min., son., color.

BATAILLE, Georges. Madame Edwarda. Lisboa: Edições António Ramos, 1978. Trad. Pedro Tamen. (col. Páginas de Sempre)

______. O erotismo. Belo Horizonte: Autêntica, 2017. (col. FILÔ/Bataille)

BENJAMIN, Walter. A imagem de Proust. In: BENJAMIN, Walter. Magia e Técnica, arte e política: obras escolhidas, vol. 1. 2ª ed. São Paulo: Ed. Brasiliense, 1986. Trad. Sergio Paulo Rouanet. p. 36-49.

BLOOM, Harold. Introdução: uma reflexão sobre a desleitura. In: BLOOM, Harold. Um mapa de desleitura. Rio de Janeiro: Imago, 2003. 2ª ed. Trad. Thelma Médici Nóbrega. p. 23-26.

CÉSAR, Adília. Lugar-corpo. S.l.: Eufeme, 2017. (col. Poetas da Eufeme, n. 6)

______. O que se ergue do fogo. S.l.: Lua de Marfim, 2016. (col. Luar de Poesia)

COMPAGNON, Antonie. O trabalho da citação. Tradução de Cleonice P. B. Mourão. 1ª reimp. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2007.

CUNHA, Andrei. Texto e têxtil em O livro de travesseiro. Crítica & Criação, n. 15, p. 20-40, dez. 2015. Disponível em: <http://revistas.usp.br/criacaoecritica>. Acesso em 20 fev. 2020.

D’AGATA, Antoine. Aka Ana (DVD). Paris: Blaq Out, 2013.

______. Aka Ana. Tóquio: Akaaka, 2017.

DELEUZE, Gilles. Carta a um crítico severo. In: DELEUZE, Gilles. Conversações. São Paulo: Editora 34, 2010. 2ª ed. Trad. Peter Pál Pelbart. p. 11-22. (col. TRANS)

______; GUATTARI, Félix. O que é a filosofia? Rio de Janeiro: Editora 34, 2010. 3ª ed. Trad. Bento Prado Jr.; Alberto Alonso Muñoz. (col. TRANS)

______; PARNET, Claire. Diálogos. São Paulo: Escuta, 1998. Trad. Eloisa Araújo Ribeiro.

DERRIDA, Jacques. Assinatura, acontecimento, contexto. Tradução de Joaquim Torres Costa e António M. Magalhães. In: DERRIDA, Jacques. Margens da filosofia. Campinas: Papirus, 1991. p. 349-373.

FOUCAULT, Michel. O corpo utópico, as heterotopias. São Paulo: n – 1 edições, 2014. Trad. Salma Tannus Muchail.

FREITAS, Suzy Elaine; PEREIRA, Mirna. Crítica expandida: uma análise da crítica cinematográfica hipertextual na web. Revista C-legenda, Niterói, n. 32, p. 44-57, 2015. Disponível em: <https://periodicos.uff.br/ciberlegenda/article/view/36974/21549>. Acesso em 19 set. 2019.

GARRAMUÑO, Florencia. Frutos estranhos: sobre a inespecificidade na estética contemporânea. São Paulo: Rocco, 2014. Trad. Carlos Nougué.

GERACE, Rodrigo. Cinema explícito: representações cinematográficas do sexo. São Paulo: Edições Sesc São Paulo/Editora Perspectiva, 2015.

GERBASE, Carlos. Imagens do sexo: as falsas fronteiras do erótico com o pornográfico. Revista FAMECOS, Porto Alegre, v. 13, n. 31, p. 39-46, dez./2006. Disponível em: <https://revistaseletronicas.pucrs.br/ojs/index.php/revistafamecos/article/view/3391/2656>. Acesso em 30 dez. 2020.

HELDER, Herberto. A carta do silêncio. In: HELDER, Herberto. Photomaton & vox. Rio de Janeiro: Tinta-da-china Brasil, 2017. p. 163-168.

______. Dedicatória. In: HELDER, Herberto. Ofício cantante: poesia completa. Lisboa, Porto Editorial, 2014. p. 437-438.

______. Vox. In: HELDER, Herberto. Photomaton & vox. Rio de Janeiro: Tinta-da-china Brasil, 2017. p. 112-114.

KAPPUS, Franz Xaver. Introdução. In: RILKE, Rainer Maria. Cartas a um jovem poeta. São Paulo: Globo, 2013. 4ª ed. Trad. Paulo Rónai. p. 17-19. (col. Biblioteca azul)

LIRA, Ramayana. Dicionário crítico: puta. Florianópolis: Cultura e Barbárie, 2017.

MARTINS, Miguel. Do tacto. In: MARTINS, Miguel. Lérias. Lisboa: Averno, 2011. p. 21.

MIGLIORIN, Cezar. Aka Ana, de Antoine D’agata. In: MIGLIORIN, Cezar. Eu sou aquele que está de saída: dispositivo, experiência e biopolítica no documentário contemporâneo. 2008. 279 p. Tese (Doutorado em Comunicação) – Universidade Federal do Rio de Janeiro, CFCH/ECO, 2008. p. 123-130. Disponível em: <http://www.pos.eco.ufrj.br/site/download.php?arquivo=upload/tese_cmigliorin_2008.zip>. Acesso em 03 dez. 2020.

______. Imagens sussurradas. Revista Cinética, 2007. Disponível em: <http://www.revistacinetica.com.br/akaana.htm>. Acesso em 03 dez. 2020.

O IMPÉRIO dos sentidos. Direção: Nagisa Oshima. Roteiro: Nagisa Oshima. Japão/França, 1976. 102 min., son., color.

OLIVEIRA JUNIOR, Antonio Wellington de; SOUSA, Emerson de. Performatividades das novas pornografias: análise dos filmes do cineasta Antonio da Silva. Contemporânea: Revista de Comunicação e Cultura, Salvador, v. 16, n. 2, p. 430-450, mai.-ago./2018. Disponível em: <https://periodicos.ufba.br/index.php/contemporaneaposcom/article/view/20753/16821>. Acesso em 30 dez. 2020.

ROLNIK, Suely. A hora da micropolítica. São Paulo: n-1 Edições, 2016.

SADE, Marquês de. Os 120 dias de Sodoma ou a Escola da Libertinagem. São Paulo: Penguin Classics Companhia das Letras, 2018. Trad. Rosa Freire d’Aguiar.

SANT’ANNA, Denise Bernuzzi de. Corpos de passagem: ensaios sobre a subjetividade contemporânea. São Paulo: Estação Liberdade, 2001.

SHÔNAGON, Sei. O livro do travesseiro. São Paulo: Editora 34, 2013. Madalena Hashimoto Cordaro (Org.). Trad. Junko Ota; Geni Wakisaka; Luiza Nana Yoshida; Lica Hashimoto; Madalena Hashimoto Cordaro.